domingo, 26 de junho de 2022

Coisas muito calmas no mesmo lugar


um ano depois
(vejo no calendário)
as coisas muito calmas
no mesmo lugar:

eu computador e cadeira
mesa janela luminária
caneca prato e música

só as plantinhas, coitadas
não estão mais lá  —

secaram murcharam
e com a terra preta do vaso
à lixeira foram
em um grande bolo.

fora isso

tudo igual, nada mudou;
a música já disse é a mesma

o sentimento, a bebida

tenho cá comigo um livro mas
ei, esse também 
já li do saramago




sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Abre portas da memória


Aquela rua faz recordar ela,
assim como dias nublados
dessa outra fazem pensar.

O livro lembra alguém
já a lua inconstante ainda outra.

Novamente, também a música, alguém,
e a lavanda do incenso
abre portas da memória.

Mas e de nós? 

Ruas, dias,
livros, luas e céus,
músicas
incensos de lavanda

também fazem lembrar
de nós,

também, em silêncio e olhando
para dentro,

talvez sorrindo,
em todo caso serenas

se recordam de nós?

De nós, dentre tantos outros
em suas lembranças. 



segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Já agora contemplo as esferas


Poemas alheios

Capítulo XII do "Tarjuman al-Ashwaq",
do Shaykh al-Akbar [Grande Mestre]
Ibn al-Arabi
a partir da versão em inglês 
de R. A. Nicholson

Para Geovana.

Em Dhú Salam 
e pelas bandas do monastério de al-Himá
pastam gazelas 
que como estátuas de mármore
resplandecem ao sol.

Já agora contemplo as esferas
já agora sirvo na igreja
já agora, pastor, cuido de um colorido prado. 

É por isso que aos olhos vulgares
ora sou pastor de gazelas no deserto
ora sou monge cristão
ora sou astrólogo.

Meu Amado é três ainda que seja Um
pois as três Pessoas em essência são
Uma.

Não te incomodes portanto, amigo,
que eu fale de gazelas
como estátuas de mármore que
resplandecem ao sol.

Ou que metaforicamente
fale
de gazelas, do sol, 
dos braços e seios de estátuas brancas,

pois assim, em metáforas,
dei virtudes às árvores
qualidades aos campos
e o relâmpago vesti
de lábios sorridentes.